quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O apelo do desconhecido

"lembrança que sente prestes a despertar, acede à estranheza do que não poderá jamais recuperar, e que está porém ali, nele, em sua volta, mas que ele só acolhe por um movimento infinito de ignorância"

Maurice Blanchot
falando de Proust sobre o apelo do desconhecido

domingo, 9 de dezembro de 2012

Polaridades cretinas que tanto amamos


Amigos,

Acho que é importante movimentarmos  esse espaço que criamos e se perdeu no tempo. Talvez o blog sistematize melhor nossos achados e perdidos desse processo. O grupo no Facebook e as listas de e-mail acabam ramificando demais nossas proposições, aí, quando for necessário retornar, talvez nem nos lembremos mais do que fizemos. O blog poderia ser usado como um grande protocolo do nosso processo. Quando lemos nosso projeto inicial, inocentemente imaginávamos esse blog como um espaço para compartilhamento de memórias entre nós e as "pessoas comuns". Talvez seja demais querer que o público se exponha como nós nos expomos para construirmos essas loucuras cênicas todas, mas não descarto esse espaço como um importante mediador entre nós e os outros que se inquietem em nos desvendar ainda mais, após nossas apresentações.

Bem, após nosso primeiro ensaio aberto, o que está mais evidente em mim é que não fiquei inseguro com nossa "criação em cena" (substituindo o termo "improviso") diante dos outros. Tudo bem, eram apenas quatro convidados nos assistindo, mas ainda assim, não houve nenhum bloqueio da minha parte. Não tive receio de me entregar às nossas proposições, das toscas e triviais às mais potentes - que bom. Com isso, me vem uma segurança maior - que inclusive contestamos muito com o Andrei, que sempre achava "tudo lindo". Criar em cena também é legítimo, é desafiador, é arriscado, e possível. Criar em cena pode sim está além do processo e servir como espetáculo, acho. Com o tempo, estamos aprendendo a jogar um com o outro. Já sabemos muito de nossas intimidades e dos nossos tempos de cena, dos nossos ritmos e subjetividades. Essa relação íntima a que nos dispomos é um legado incrível, porque acredito que isso também nos deixou mais limpos/sem couraças diante uns dos outros e também amigos.

Ao mesmo tempo, acho muito válido que elaboremos um roteiro de memórias mais firme. Acho válido também que nos debrucemos em codificar mais cenas. Acho válido também que nossa dramaturgia não tenha o "aristotelismo" como uma praga imensurável. Creio que não podemos simplesmente negar para encontrar o novo. Às vezes, o clássico está tão impregnado em nós mesmos, que negá-lo pode ser uma grande armadilha. São limiares tênues de construção e desconstrução. E a gente deve pisar nessas oscilações, em vez de cairmos somente na nóia dramaturgista como se ela fosse a salvação da encenação contemporânea.

Talvez, mais rico do que fugir do tradicional, seja encontrar a "zona de borramento" (adoro esse termo) entre esses dois pólos que nos angustiam. O fato é que ambos têm potências incríveis, aos mesmo tempo em que ambos também podem trazer seus problemas. Um negócio estranho que nos aconteceu dessa vez é que, durante a criação em cena, não soubemos respeitar as falas e momentos uns dos outros. Nos embolamos muito em nossas proposições - coisa que não aconteceu tantas vezes. Um fato ótimo também é que não estamos demorando tanto para embarcarmos no caos imaginário que nos propulsiona à cena - antes chegávamos a demorar uma hora para o motor pegar, lembram? Parece que os 15 minutos vem sendo suficientes.

Parece bobo, mas acho importantíssimo nos ritualizamos melhor antes de entrarmos no jogo. Edivaldo me disse "Danilo, mas a criação em cena já é o aquecimento", entretanto, acho que discordo. A criação em cena é muito mais que uma preparação, por isso, antes de embarcarmos no jogo, precisamos estar dispostos fisicamente para ela. Não sei se com vocês é assim, mas o cansaço, a exaustão, o suor, o calor me levam a estados psicológicos mais propensos para o jogo. A energia fica muito latente, perigando explodir. Talvez seja minha imaturidade de palco, mas acho é mais ou menos por aí que fico me sentindo mais ator, disposto a matar ou morrer (risadinha).

Fato: adoro o prato se estatelando no chão, acho lindo, me ajuda na cena. Fato: se for apenas um recurso dramático se torna previsível e vazio. Fato: temas universais prendem mais. Fato: solidificar melhor determinadas cenas faz com que seguremos as rédeas com mais força. No Teatro Pânico, do Arrabal, um negócio legal que ele fala dialoga com a teoria do caos. Ele me disse "não estamos buscando a confusão, estamos contra ela".  Na verdade, a ideia é justamente brincar de desarrumar ao mesmo tempo em que se luta para arrumar. São polaridades que devem existir no nosso trabalho. O caos e a organização devem coexistir como forças equivalentes, creio. Um não existe sem o outro.

PS: Não podemos deixar de trabalhar com frutas nos momentos de "criação em cena".

Beijos!

Danilo.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Aquele que já fui



Quando me olho aprisionado no tempo de uma fotografia, penso se o que se foi é aquilo que vivi ou se é aquilo que me relataram que vivi. Até onde eu me sou? Até onde alguém me construiu?