segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Carta de Jared Domício ao Projeto Achados & Perdidos


Instalação "Pedaços de Todos Nós", no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno - UFC
Oi Andrei,

Depois de sair do seu achados e perdidos ainda meio atordoado, caminhei até a parada de ônibus e no tempo de espera fiquei olhando umas caixas de papelão que estavam encostadas na parede. Uma em particular tinha escrito na lateral: cuidado, frágil. Entrei numas sobre a memória dos objetos e entre os mil pensamentos que me chegaram entendi que eu, naquele momento, bem podia ser aquela caixa com aquela inscrição. Talvez em letras maiores, uns pontos de exclamação e algum exagero a mais, tipo: EI!! CUIDADO, PORRA!!! FRÁGIL!!

O percurso que fiz até o teatro foi estranho. Sai de casa e já fiquei sabendo que um taxista tinha sido baleado alguns quarteirões depois da minha casa. Carros de polícia na rua. Um tom de luto no rosto das pessoas. Alguma coisa anda mudando no mundo, tempos atrás seria mais um morto sem toda essa atenção. As pessoas andam sentindo umas as outras de forma diferente. 

Segui no ônibus, que desviou do caminho tradicional devido ao engarrafamento provocado por uma rua fechada onde uma pequena multidão curiosa tentava olhar algum cadáver entre os carros da polícia. Mais adiante uma moça desatenta acabou batendo o carro dela no ônibus onde eu estava. Desci, meio impaciente com toda a situação e andei um pouco mais até onde podia pegar outro ônibus que me levasse ao teatro sem tumulto. 

Chegando la encontrei a Herê, que não via há muito tempo. Entramos lá e aquele monte de objetos foram disparando coisas em mim. Acho que ando sentindo demais, talvez mais do que devia. E cada objeto abria um campo, trazia memórias entre boas e ruins que foram me desestruturando. Preparando o terreno para toda a cena. Nem sei o que comentar sobre a forma como foi feita a tal instalação. Também não sei se é uma instalação, mas também não sei se isso interessa. Talvez possamos falar disso depois. O fato é que, isso que começou com os objetos, foi ampliado com o que veio a seguir. As falas, as ações oscilavam entre divertidas, dramáticas e constrangedoras.

Gostei da experiência. Entendi que ser público no lugar que vocês construíram é tão desafiador quanto ser ator. Saí dalí meio em suspensão. Um tanto arrependido de não ter falado um “parabéns pelo trabalho!!” ou de ter dado um abraço mais forte que pudesse traduzir para você que gostei muito do que assisti. Mas é que sentí demais, de tudo um pouco, por mim, por outros. E não soube bem como encerrar aquilo e me expressar de uma forma que valesse a pena. Foi quando vi a caixa da parada do ônibus e me enxerguei jogado no pé do muro com o aviso de “cuidado, frágil”(pero no mucho), mais do que eu gostaria ou deveria para idar bem com mundo.

Cheguei em casa e já começei a escrever esse texto. Conversando comigo sobre umas nostalgias e procurando um jeito de dizer a você que fico feliz de ter sido convidado para viver isso e dê os parabéns para os atores também.

Abração!

Jared

2/10/2013

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O encontro marcado no acervo das memórias (Jornal Diário do Nordeste)

Nova temporada do projeto coletivo "Achados & Perdidos", hoje e amanhã, no Teatro Universitário

Por Andressa Souza

No palco e na plateia, um porão de recordações. Empoeiradas ou sempre revisitadas, cada qual com um significado precioso: a memória é uma doação e um primeiro passo. O Projeto Achados & Perdidos, novamente em cartaz a partir de hoje, propõe um teatro baseado em fatos reais dentro de uma obra sempre aberta e reciclada por novas lembranças - dos artistas e do público.

Foto de Levy Mota
Pensado em julho de 2012, as primeiras apresentações do projeto - assim chamado por ser híbrido e reunir em si ações de diversas linguagens, como o teatro, a performance, a instalação e a fotografia - aconteceram em junho de 2013. O mote inicial é um resgate das memórias dos próprios criadores, os artistas Andrei Bessa, Danilo Castro, Edivaldo Batista e Keka Abrantes. Emocionalmente desnudos pela consciência de que a plateia assiste e acompanha o real em suas vidas, o comum e o extraordinário do cotidiano transformado em lembranças, os atores mergulham em seus passados e presentes teatrais e pessoais em busca de inquietação e criação.

"A gente tem tentado compreender o teatro como uma experiência para quem faz e para quem assiste", explica o ator Danilo Castro. Essa forma mais dinâmica e interativa de fazer teatro é perceptível em vários aspectos do espetáculo, a começar pelo cenário. A instalação onde a obra cênica se dá é aberta ao público com uma hora de antecedência, para que cada espectador traga um objeto caro à sua história: uma foto, uma carta, um bicho de pelúcia, uma coleira de cachorro. Um pedaço de trajetória e lembrança. Os atores estão à espera para conhecer cada uma dessas recordações. Em cena, o público se emociona: a referência a cada um dos anônimos ocultos pelas luzes apagadas na plateia é clara. São as histórias deles, misturadas às experiências de Danilo, Andrei, Keka e Edivaldo ali, sobre o palco. "A gente queria uma relação entre artistas e público que não fosse invasiva, mas que pudesse trazer a pessoa por um laço afetivo", define Castro. "O espetáculo já começa em casa quando a pessoa pensa no que vai levar". Para Bessa, é como um encontro amoroso para o qual cada um se prepara com um cuidado especial.

Por conta dessa interação, que varia com o público e suas exposições e aberturas, o projeto não se prende a falas decoradas ou estruturas engessadas. "A obra é processual e está sempre em estado de construção", define Andrei Bessa, cujo objeto de estudo no mestrado em Artes da Universidade Federal do Ceará é o Achados & Perdidos como um espetáculo que foge do tradicional dramatúrgico. De acordo com Danilo Castro, o método utilizado é o de criação em cena, onde existe um roteiro definido, mas não uma dramaturgia única. "Existe uma ordem de cenas que vão variando de acordo com a textura que cada apresentação propõe", explica. "A gente deseja, sente a energia, sente a possibilidade para que as coisas se encaixem de maneira mais orgânica", acrescenta Bessa, que costuma ficar fora do palco, pois trabalha como um provocador e um propositor de cena para os outros três companheiros.

 "Desafiador é uma palavra que norteia a gente desde o início", define Andrei Bessa. "Sabíamos que isso ia nos provocar como artistas." Para o ator, trazer cenas, memórias, falas e figuras que atravessam cada um durante a vida faz com que o espectador acesse outros lugares e estados. "Nós escolhemos que em vários momentos o espetáculo pare de falar da gente. Queremos que as pessoas comecem a se olhar, que os espectadores saiam revirados, se questionando. Não precisamos fechar as coisas, precisamos deixar as feridas abertas. Não somos só nós que vasculhamos nossos acervos de memória", explica Bessa.

Foto de Andrei Bessa
Achados & Perdidos atinge o nível do quase terapêutico por tratar das histórias de vida, das alegrias e das desventuras que acometeram os envolvidos presentes no teatro, sejam eles o público ou os atores. "Esse espetáculo chega muito nas pessoas, elas se identificam com as nossas questões. Suicídio, casamento, são situações que fazem parte do cotidiano de muitas famílias", conta Danilo Castro. As reações a essa linha tênue entre passado e presente, real e verossímil, são distintas. Os atores relatam casos de espectadores emocionadíssimos, a ponto do choro copioso ser desconcertante e provocador, e outros revoltados, enfurecidos. "A gente amadureceu em relação às nossas questões pessoais e como artistas", explica Danilo. "A gente trata os problemas como batentes de superação, rememora momentos difíceis, compartilha." O ator confessa que o grupo antes receava as críticas ao espetáculo por suas linhas que fogem ao tradicional. Hoje, o novo é justamente o maior propulsor e incentivador do trabalho dos quatro.

As obras do Projeto Achados & Perdidos serão apresentadas dias 1, 2 e 3 de outubro, a partir de 18h30, como parte da programação do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), no Teatro Universitário. A programação é gratuita. Um lembrete: leve tudo de si e um pedaço da sua história.

Mais informações

Projeto Achados & Perdidos - Hoje e amanhã, às 18h30, no Teatro Universitário (Av. da Universidade, 2210 - Benfica). Gratuito. Contato: (85) 3366.7831

Fonte: Caderno 3 - Jornal Diário do Nordeste (02/10/2013)